O bullying é um problema cada vez mais comum nas escolas de todo o mundo. A palavra de origem inglesa, significa toda a violência que ocorre em território escolar, desde o jardim de infância até a faculdade. Para que se diferencie de um caso de violência isolada, a prática precisa ter três características: ser repetitiva, intencional e a vítima tem que estar em uma posição que não pode fazer frente ao seu agressor, seja porque ela é uma minoria, fisicamente mais frágil ou tem um temperamento não aceito a respostas violentas, ela reprime e não dá vazão à violência sofrida.
Sobre este problema cada vez mais comum nas escolas, o JF HOJE entrevistou Ana Beatriz Barbosa Silva, psiquiatra e autora de vários livros, entre eles, os sucessos, Mentes Perigosas: O psicopata mora ao lado e Bullying: Mentes perigosas na escola.
JF HOJE - Qual o perfil da pessoa vítima de bullying. Que tipo de comportamento ela demonstra?
ANA BEATRIZ BARBOSA - Geralmente é sempre uma criança ou um adolescente mais recatado, tímido, menos popular, mais reservado. Em casa ela começa a demonstrar isolamento, não recebe telefonemas convites pra festas, fica triste e começa a apresentar alterações psicossomáticas: enjoo, náusea, vômito, dor de cabeça, insônia, diarreia. Geralmente esses sintomas acontecem sempre à noite, na véspera de ir para escola ou no próprio caminho do colégio. Na hora do recreio, ela fica sempre isolada ou sempre buscando auxílio de um adulto para se proteger, seja o cantineiro ou o professor.
Qual a parceria que os pais devem ter junto à escola para combater este problema?
Em primeiro lugar, os pais têm que detectar as alterações e confirmar, procurando a direção da escola e pedindo para averiguar com todos os professores, principalmente com os de Educação Física, porque muitas agressões são feitas nesse ambiente, como justificativa do contato físico durante os exercícios. A direção tem que dar uma vasculhada em toda a escola. E jamais colocar a vítima frente a frente com seu agressor, como algumas escolas costumam fazer. Isso não funciona no bullying, só alimenta.
Por que alimenta?
Porque está colocando a vítima em frente ao seu algoz e quem sofre o bullying, sofre calado. Porque sempre sofre ameça de “se você falar, eu vou fazer mais.” Quem pratica bullying, não faz sozinho, tem uma turma. A direção da escola deve conversar com os pais, se não houver um acordo, então deve acionar os conselhos tutelares. Os conselhos estão aí prontos para servir e até deliberar sobre as atitudes que os pais devem tomar. Muitas vezes, os pais não querem obedecer aos diretores, achando que seus filhos são 'santos’, responsabilizando somente a escola pelos atos dos filhos. O conselho é como se fosse um juizado neutro, porque ouve ambas as partes e acaba determinando qual ação deve ser praticada por cada lado.
Existe um perfil padrão dos agressores?
Varia muito, enquanto as vítimas têm um perfil mais uniforme, os tipos de agressores são vários. Eu costumo dividir em quatro tipos. Aquele que se torna agressor por mera falta de limite no seu processo educacional. Tem aquele que é por falta de um modelo educacional que privilegie a solidariedade como algo importante culturalmente, os pais não dão um exemplo bacana de tratar bem os outros, de respeitar as diferenças. Muitas vezes essas coisas vêm juntas, a falta de limite e de exemplo.
Têm aqueles que só momentaneamente apresentam esse comportamento, é o bullying circunstancial. Tem que ver o que está acontecendo na vida daquela criança, pode ser um problema momentâneo. E o quarto caso são de crianças que demonstram a falta de um sentimento básico: a empatia, de se colocar no lugar do outro, sofrer o sofrimento do outro. Muitas bullies são crianças que demonstram, desde pequenas características um pouquinho perversas, maltratam animais, os próprios irmãos, têm um poder de manipulação muito grande. São minorias, mas os mais difíceis de serem percebidos, porque são crianças dissimuladas, jogam pai contra mãe, escola contra os pais. Eles manipulam sempre com o intuito de se darem bem. Nunca tomam parte, colocam outros para fazer o trabalho sujo. Temos que ter um cuidado enorme.
Esses seriam possíveis psicopatas?
O psicopata é 100%, ele sabe o que pode ou não fazer. Se os adultos não se deixarem manipular no processo educacional, a criança vai notar desde muito cedo que tem de cumprir algumas regras e não vai conseguir tudo o que quer. As pessoas não detectam, porque elas costumam achar que não existem crianças maldosas, mas existem.
Quem é vítima pode se transformar em agressor?
Com certeza. Nem todas as crianças que sofrem e depois praticam são crianças perversas. Chega uma hora em que elas começam entrar naquela cultura de exercer o poder em cima de alguém ou viram só saco de pancada. A gente tem que fazer uma mudança radical nessa cultura, porque isso é quase uma cultura feita nas escolas para se tornarem populares. Se a gente não fizer nada rapidamente, muita gente vai praticar sem gostar. Irão cansar de serem só vítimas.
Recentemente em Juiz de Fora, um casal de adolescentes que estava fazendo sexo, dentro do banheiro de um cinema, foi filmado e tudo foi exposto na internet. Fale um pouco sobre o cyberbullying.
O cyberbullying, talvez, seja um dos mais agressivos. Porque a pessoa se vale do anonimato para exercer toda a maldade. Expõe a vítima a um vexame público. Um único ato de bullying feito pela internet, já é bullying. Não precisa daquelas três características, porque automaticamente quando cai na rede, se replica, ou seja, já é repetitivo e intencional, ninguém coloca um vídeo desses sem querer agredir. Uma coisa bem legal nos últimos dois anos, foi que o combate à pedofilia acabou criando uma ONG em Salvador que se chama Safernet. Ela desvenda crimes virtuais e hoje a vítima de cyberbullying deve imprimir o material, porque os agressores apagam, registrar um boletim de ocorrência e acionar a Safernet, que tem como chegar no computador de quem agrediu. A gente precisa começar a punir.

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